segunda-feira, 22 de agosto de 2016


Viva! A família dominicana está em festa!!!

Trabalho dos alunos do Colégio Nossa Senhora das Dores, EFI, sob a coordenação da professora Lidiane - produção de textos.



Trabalho dos alunos do Colégio Nossa Senhora das Dores, EFI, sob a coordenação da professora Lidiane - produção de textos.



quinta-feira, 15 de maio de 2014

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Os ''analfabetos'' religiosos

Ninguém, na Itália, é obrigado a ter uma religião em particular. Isso, porém, não deveria justificar a grande ignorância nesse campo – no catolicismo, ao menos, seguido pela maioria dos italianos – sob pena de não conhecer a própria história.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no jornal Trentino, 05-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, é exatamente isso: tal "desconhecimento" é galopante, como demonstra impiedosamente o Rapporto sull’analfabetismo religioso in Italia [Relatório sobre o analfabetismo religioso na Itália] (Ed. Il Mulino), um livro volumoso, recém-publicado, editado por Alberto Melloni, o secretário da Fundação João XXIII para as Ciências Religiosas, que sabiamente coordenou o trabalho de cerca de 30 juristas, teólogos, historiadores, sociólogos, educadores que, de diversos pontos de vista, chegaram a uma conclusão desanimadora: o analfabetismo religioso reina soberano.
Não adentraremos nos inúmeros dados fornecidos pelo livro, enriquecido também com as acuradas pesquisas demográficas que fotografaram qual é o conhecimento que os italianos têm das Escrituras hebraicas e cristãs, e das noções basilares do cristianismo.
Embora 70% dos italianos tenham a Bíblia em casa, apenas 29% admitem ler uma página de vez em quando, muitos não sabem quem "ditou" os dez mandamentos, e outros confundem Moisés com Jesus.
Naturalmente, é possível viver também ignorando essas coisas, mas para quem não as conhece, falta chave para entender, por exemplo, muitíssimas obras-primas da pintura que têm   como objeto temas bíblicos e acontecimentos ligados às Igrejas.
A "necessidade" de saber sobre o cristianismo – a religião ainda predominante na Itália e que durante séculos marcou a Europa – não significa, necessariamente, ser fiel a uma Igreja: na Itália, ele diz respeito a todos, católicos e não católicos, agnósticos, ateus ou crentes de outras formas.
De fato, sem esse conhecimento, é "impossível" entender o passado deste país. Entendê-lo – que fique claro – para o bem e para o mal, e sempre permanecendo livre para avaliar o passado e o presente, com suas luzes e suas sombras, como tais nos apareçam em ciência e consciência.
Tal saber, hoje, é mais importante do que antigamente: até poucas décadas atrás, na Itália, era possível viver sem nunca encontrar, ou encontrar muito raramente, pessoas de religião diferente da católica. Hoje, no entanto, vivem na Itália 1,7 milhão de cristãos ortodoxos (russos, ucranianos, moldavos e romenos, em particular), um milhão de muçulmanos e ainda milhares de hindus, budistas, sikhs.
Portanto, é normal encontrar essas pessoas: mas, para dialogar com elas, é necessário conhecer – independentemente das próprias convicções pessoais – as linhas mestras do cristianismo que animaram a Itália e ter também alguma noção não simplista das religiões dos nossos hóspedes. Chegou a hora, enfim, de ser cristãos sérios, ateus sérios, agnósticos sérios, crentes sérios.
O analfabetismo era uma chaga antigamente na Itália. Agora é bem raro encontrar uma pessoa que não saiba ler. No entanto, permanece o analfabetismo religioso: também este uma chaga que, não curada, pode ter consequências sociais muito desagradáveis.



PARA LER MAIS:




terça-feira, 14 de janeiro de 2014



DICA DE LEITURA


                                                               

A nova Cartilha da Diversidade Religiosa (em anexo) está disponível no link:
http://www.uniaoplanetaria.org.br/direitoshumanos/files/2013/11/Diversidade-Religiosa-e-DDHH-2013.pdf

A CARTILHA SOBRE A DIVERSIDADE RELIGIOSA não é um texto acadêmico. Mas, politicamente é um texto com assinatura do governo federal que procurou articular diferentes tradições e explicitar que o país é plural. Especialmente em um momento que assistimos cenas de intolerância religiosa, racismo, homofobia todas justificadas pela leitura religiosa - um texto como este é importante. Torná-lo conhecido, provocar novos diálogos,talvez reescritas, aprimoramento possa ser uma nova forma de superarmos tanta intolerância. (Formação Continuada GPER)



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

IMIGRANTES E REFUGIADOS
PROCESSOS DE INTEGRAÇÃO

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
O drama dos imigrantes e refugiados, no mundo contemporâneo, emerge e se impõe com a força de águas represadas. Estas se traduzem, de um lado, pelo medo e a fuga diante da pobreza, da violência ou da guerra, mas de outro lado, pelos sonhos, esperanças e lutas de novas gerações em busca de trabalho e futuro, pão e paz. A travessia é sempre uma aventura arriscada de um “não lugar” para uma terra com sabor de pátria. O mar e o desterro, muitas vezes, se convertem em cemitério de imigrantes ou de cadáveres insepultos.
Do ponto de vista das autoridades de muitos países, tanto os imigrantes quanto os refugiados constituem ambos um problema. Transformam-se, não raro, em caso de polícia, ainda no pano de fundo da ideologia de segurança nacional, que remonta aos tempos da guerra fria. Outras vezes são confundidos genericamente com a realidade do tráfigo de drogas, armas e seres humanos. Com isso é mais fácil fechar-lhes as fronteiras e rechaçá-los. Sem dúvida os atentados de 11 de setembro de 2001 agravaram tal clima no mundo da mobilidade humana. Respira-se uma atmosfera de tensão, hostilidade e conflito.
Do ponto de vista da sociedade em geral, ou da opinião pública, os estrangeiros podem ser vistos como “intrusos”. Além de estranhos e diferentes, pretendem roubar nossos postos de trabalho, o lugar de nossos filhos na escola... Instala-se um dualismo entre “nós” e “eles”, os de “dentro” e os de “fora”, os “bons” e os “maus”. Nessa perspectiva, nascem e crescem as mais variadas formas de preconceito, discriminação e xenofobia. A intolerância cerra portas e janelas à “invasão” do outro. Daí o ressurgimento de grupos neofacistas ou neonazistas diante da maior intensidade e complexidade do fenômeno migratório.
Entre esses dois cenários – a guerra fria e o medo do outro – convém refletir sobre uma via de alternativa. O fenômeno migratório tornou-se tão vivo e estridente que não permite indiferença. Em lugar de muros e leis cada vez mais rígidas e restritivas, resta-nos o desafio de construir pontes. Deafio que pressupõe, simultaneamente, uma constatação, uma novidade e uma ação. A constatação é a de que as diferenças, longe de nos empobrecerem, nos tornam mais ricos. Línguas, povos, culturas e costumes diferentes, quando colocados lado a lado, representam um enorme potencial de recíproco crescimento humano. A identidade de cada pessoa ou nação só se realiza plenamente no confronto com o outro.
A novidade está nos olhos, no coração e na alma de quem faz da fuga uma nova busca. Imigrantes e refugiados carregam nas veias uma enorme vontade de vencer. Constituem sangue novo em organismos e sociedades às vezes marcadas por um senil declínio; oxigênio primaverial num mundo que caminha para o outono. Essa energia juvenil, própria de quem se põe a caminho, faz marchar a própria história. Vigor e coragem (e não só medo e desilusão) costumam fazer parte da bagagem dos migrantes. Estes se tornam profetas e protagonistas (não somente vítimas) de horizontes mais largos, abertos e plurais.
A ação, por fim, requer em primeiro lugar acolhida, escuta e compreensão diante do outro/diferente. Aqui não basta a tolerância ou a coexistência pacífica do multi-culturalismo (uma espécie de justaposição de água e azeite). É urgente e necessário um salto qualitativo em direção ao inter-culturalismo, o qual exige o confronto e o diálogo que depuram, purificam e trazem um enriquecimento mútuo. É o que se pode chamar de processo de integração, que passa, ao mesmo tempo, por um reconhecimento dos vícios a serem superados e dos valores a serem incorporados – numa palavra, inculturação.

Neste caso, longe de ser um problema ou um intruso, o estrangeiro – imigrante ou refugiado – se converte em oportunidade. Oportunidade múltipla de aprendizado, de confluência de energias renovadas e de encontros. Pavimenta-se o terreno para a cultura da solidariedade, da paz e do encontro. Pontes ao invés de barreiras – eis o que precisamos construir. Aliás, Refugiados e migrantes rumo a um mundo melhor será o tema da mensagem do Papa Francisco para O dia Mundial do Migrante de 2014.


Mensagem de São Francisco de Assis aos jovens de hoje
Leonardo Boff (*)
Queridos jovens, meus irmãos e minhas irmãs.
Como vocês, também fui jovem. Era filho de um rico comerciante de tecidos: Pedro Bernardone. Com ele, fui às famosas feiras do sul da França e da Holanda. Aprendi francês e conheci um pouco o mundo, especialmente a música dos jograis e cantigas de amor da Provence.

Minha festiva juventude
Meu pai, muito rico, me proporcionou todas as facilidades. Eu liderava um grupo de jovens boêmios que adoravam passar muitas horas à noite nos becos das ruas, cantando poemas de amor cortês e ouvindo menestréis que narravam histórias de cavalaria. Fazíamos festins e muita algazarra. Assim se passaram vários e alegres anos.
Depois de algum tempo, comecei a sentir um grande vazio dentro de mim. Tudo aquilo era bom, mas não me preenchia. Para superar a crise, tentei ser cavaleiro e fazer façanhas em batalhas contra os mouros. Mas no meio do caminho desisti. Entrei num mosteiro para orar e fazer penitência. Mas logo percebi que esse não era o meu caminho.

O chamado para reconstruir a Igreja em ruínas
Lentamente, porém, começou a crescer dentro de mim um estranho amor pelos pobres e profunda compaixão pelos hansenianos que viviam isolados, fora da cidade. Lembrava-me de Jesus que foi  também pobre e muito que sofreu na cruz.
Certo dia, quando entrei numa igrejinha, de nome São Damião, fiquei  longamente contemplando o rosto chagado do Cristo Crucificado. De repente, me pareceu ouvir uma voz vindo dele: “Francisco, vá e repara a minha igreja que está em ruinas”!
Aquelas palavras calaram fundo no meu coração. Não conseguia esquecê-las. Comecei, com minhas próprias mãos, a reconstruir uma pequenina e velha igreja em ruínas, chamada de Porciúncula. Depois, pensando melhor, me dei conta de que aquela voz se referia à Igreja feita de homens e de mulheres, de prelados, abades, padres, não excluindo o próprio Papa. Ela estava em ruína moral. Grassavam muitas imoralidades, fome de poder, acumulação de riquezas, construções de palácios de cardeais, de papas e suntuosas igrejas. Tudo aquilo que Jesus seguramente não queria de seus seguidores.

A descoberta do evangelho e dos pobres
Achei por bem beber da fonte genuína da reconstrução da Igreja: os evangelhos e o seguimento de Jesus pobre. Ninguém me inspirou ou mandou; mas foi Deus mesmo que me conduziu ao meio dos hansenianos. E tive imensa compaixão deles. Aquilo que antes achava amargo, agora, pelo amor compassivo, se me tornava doce. Comecei a pregar pelos burgos as palavras de Cristo, em língua popular que todos entendiam. Via nos olhos das pessoas que era isso que esperavam e queriam ouvir.


Todos os seres da criação são irmãos e irmãs
Nas minhas andanças me fascinava a beleza das flores, o canto dos passarinhos, o ruído das águas dos riachos. Tirava do caminho poeirento a minhoca para não ser pisada. Entendi que todos tínhamos nascidos do coração do Pai de bondade. Por isso éramos irmãos e irmãs: o irmão fogo, a irmã água, o irmão e Senhor Sol e a irmã e a Mãe Terra e até o irmão lobo de Gubbio.
Muitos antigos companheiros de festas e diversões se juntaram  a mim. Uma bela e querida amiga, Clara de Assis, fugiu de casa e quis compartilhar a nossa vida simples. Começamos um movimento de pobres. Nada levávamos conosco. Apenas o ardor do coração e a alegria do espírito. Trabalhávamos nos campos ou pedíamos esmolas. Queríamos seguir os passos de Cristo humilde, pobre e amigo dos pobres. E o Papa Inocêncio III, mesmo cheio de hesitações, aprovou a nossa opção em 1209 permitindo-nos de pregar por todas as partes o evangelho de Jesus.
Depois de alguns anos, já éramos uma multidão a ponto de eu não saber mais como abrigar e animar tanta gente. O resto da história vocês conhecem. Não preciso repeti-la.  Mais tarde, com o apoio do Papa daquele tempo, criou-se a Ordem dos Frades  Menores, com diversos ramos, que persiste até os dias de hoje.
Vejam, queridos jovens, irmãos e irmãs meus queridos. Tive uma experiência que certamente vocês, como jovens, também tiveram ou estão tendo: de roda de amigos, de festas e de folias. Portanto, temos algo em comum.
Mas aproveito agora, que estou em outra idade e que estamos juntos para dizer-lhes algumas coisas, que considero de suma importância para os tempos atuais.

A Mãe Terra está doente e com febre
A primeira é: como nunca antes, estamos num momento crítico da história da Terra e da Humanidade. O clamor da natureza se faz ouvir de forma cada vez mais forte. Nossa querida Mãe e irmã Terra está doente e com febre, pois, já há muito tempo, a estamos superexplorando. Tiramos dela mais do que ela anualmente pode repor. O ar está contaminado, as águas poluídas, os solos envenenados e nossos alimentos cada vez mais quimicalizados. O aquecimento da Terra não para de aumentar. Milhares de espécies de seres vivos, nossos irmãos e irmãs, estão desparecendo por ano: uma verdadeira devastação, ocasionada pela forma agressiva com a qual nos relacionamos com a natureza, com os seres vivos e a com própria a Terra.
Devemos, urgentemente, fazer uma aliança global de cuidar da Terra e uns e dos outros, caso não quisermos conhecer grandes dizimações que afetarão toda a comunidade de vida. Corremos, portanto, grande risco.  Mas se assumirmos uma responsabilidade solidária e um comportamento de cuidado com tudo o que existe e vive, e assumirmos uma sobriedade compartida, poderemos escapar desta tragédia. E vamos escapar.

Resgatar a razão cordial e sensível

Uma segunda coisa. Preciso dizer-lhes como um irmão mais velho e experimentado. Temos que mudar a nossa mente e o nosso coraçãoMudar a mente para olhar a realidade com outros olhos. Os olhos das ciências hoje nos comprovam que a Terra é viva e não apenas algo morto e sem propósito, uma espécie de baú de recursos ilimitados que podemos usar como queremos. Eles são limitados, como a energia fóssil do carvão e do petróleo, a fertilidade dos solos  e as sementes. Ela é mãe generosa. Precisa ser cuidada, amada e respeitada como o fazemos com nossas mães.
Os astronautas, lá da Lua ou de suas naves espaciais, nos testemunharam: Terra e Humanidade são inseparáveis;  formam uma única entidade, indivisível  e complexa. Por isso nós, seres humanos, somos aquela porção da Terra que sente, que pensa, que ama e que venera. Somos Terra e tirados da Terra como nos dizem as primeiras páginas da Bíblia. Mas recebemos uma missão única, como se lê no segundo capítulo do Gênesis: somos colocados no Jardim do Éden, quer dizer, na Mãe Terra, para cuidar e guardar todas as bondades naturais. Somos os guardiães da herança que Deus e o universo nos confiaram e que queremos repassar para nossos filhos e netos, conservada e enriquecida.
Além da mente devemos também mudar  o nosso coração. O coração é o lugar do sentimento profundo, do afeto caloroso e do amor sincero. O coração é o nicho de onde crescem todos os valores e se expressa o mundo das excelências. Junto com a razão intelectual que vocês tanto exercitam na escola, no trabalho e na condução da vida, existe a inteligência cordial e sensível. Ela foi, por muito tempo, colocada sob suspeita, com o pretexto de que ela nos tiraria a objetividade do olhar. Puro engano. Hoje entendemos que precisamos resgatar, urgentemente, a razão cordial e sensível para enriquecer a razão intelectual. Só com a razão intelectual sem a razão cordial não vamos sentir o grito dos pobres, da Terra, das florestas e das águas. Sem a razão cordial não nos movemos para ir ao encontro dos que gritam e sofrem para socorrê-los, oferecer-lhes um ombro e salvá-los. Da razão cordial nasce a ética, aquele conjunto de valores que orientam nossa vida.
Por isso, meus queridos jovens, vocês que naturalmente são sensíveis para os grandes sonhos e para o voo na direção das alturas, cultivem um coração que sente, que se comove e que leva à ação salvadora. Essa razão cordial e sensível é mais ancestral que a inteligência intelectual. É ela que nos faz guardar as boas ou más experiências.

Aprender a habitar de forma diferente a Terra
Uma terceira coisa gostaria de dizer-lhes confiadamente: importa inaugurarmos uma forma nova de habitar o planeta Terra. Assim como estamos, não podemos continuar. Até agora habitávamos dominando com o punho fechado e submetendo tudo. A tecnociência servia de grande instrumento de intervenção na natureza. Em quatrocentos anos afetamos as bases naturais que sustentam a nossa vida.  Alimentamos um projeto de ilimitado progresso. E de fato trouxemos notáveis progressos e comodidades para grande maioria da humanidade. Mas hoje estamos conscientes de que a Terra, pequena e limitada, não aquenta um projeto ilimitado. Encostamo-nos aos seus limites. Porque continuamos a forçar estes limites, a Terra responde com tufões, enchentes, secas, terremotos e tsunamis. Esse modelo agressivo de habitar o mundo cumpriu sua missão histórica. A continuar assim, pode nos causar grandes prejuízos e eventualmente ameaçar a espécie humana. Temos que mudar se quisermos sobreviver.
Somos obrigados a ensaiar um novo modo de habitar e de nos relacionar com a natureza e com a Terra. No lugar do punho fechado devemos ter a mão aberta para o cuidado essencial, para o entrelaçamento dos dedos numa aliança de valores e princípios que poderão sustentar um novo ensaio civilizatório.
Precisamos produzir, sim, para atender as necessidades humanas. Mas temos que aprender a produzir respeitando os limites da natureza e da Terra, tirando delas o necessário e o decente para a vida de todos, com justiça e equidade. Será uma sociedade de sustentação de toda a vida. O centro será ocupado pela vida da natureza, pela vida humana e pela vida da Terra.  A economia e a política estarão a serviço mais da vida do que do mercado. E o nosso consumo será marcado pela solidariedade universal e pela sobriedade compartida.

A mudança começa por vocês
Caros jovens: sejam vocês mesmos a mudança que queremos para os outros. Comecem vocês mesmos a viver o novo, respeitando cada um dos seres da natureza, cada planta, cada animal, cada paisagem porque eles possuem um valor intrínseco e em si mesmo, independente do uso racional que fizermos deles. São nossos irmãos e irmãs. Com eles fundaremos uma convivência de respeito, de reciprocidade e de mútua ajuda para que todos possam continuar vivos neste planeta, também os mais vulneráveis para os quais devotaremos mais cuidado e amor.
Queridos irmãos e irmãs jovens: resistam à cultura da acumulação e do consumo. Pensem nos outros irmãos e irmãs que são  milhões e milhões que vivem e dormem com fome e com sede e passando por grandes padecimentos. Nunca, em nenhum dia, deixem de pensar e se preocupar com os pobres e com seu destino dramático, principalmente, das crianças inocentes.
Tenham um consumo solidário. Realizem os três famosos erres): reduzir, reutilizar e reciclar tudo o que consumirem. E eu acrescentaria ainda outro erre (r)): rearborizar. Plantem árvores, recuperem zonas desflorestadas. As árvores sequestram os gases poluentes, nos dão sombra, flores e frutos. Façam a experiência de que com menos poderão ser mais e que a felicidade reside não no enriquecimento e numa rendosa profissão, mas  no compartir e no tratar sempre humanamente a todos os humanos, nossos semelhantes.

Mantenham dentro de vocês a chama sagrada  sempre viva
Por fim, caros jovens, irmãos e irmãs meus queridos: nada disso tudo que refletimos terá eficácia se não misturarmos Deus em todos os nossos empreendimentos. Ele não está em parte nenhuma, porque está em todas as partes. Mas está principalmente no coração de vocês. Dentro de cada um de vocês queima uma brasa viva e arde uma chama sagrada: é a presença misteriosa e amorosa de Deus. Ele emerge de  forma sensível no fenômeno do entusiasmo, tão forte na idade de vocês. Entusiasmo significa ter um Deus dentro: é o Deus interior, o Deus companheiro e amigo, o Deus de amor incondicional.
A nossa cultura materialista e consumista cobriu de cinzas esta brasa e ameaça apagar a chama sagrada. Afastem essa cinza através da abertura do coração a esse Deus; reservem cada dia um momento para pensar nele, conversar com ele, queixar-se e chorar diante dele e dirigir-lhe uma súplica. Às vezes não digam nada. Coloquem-se apenas silenciosos diante dele.  Ele poderá lhes falar e lhes suscitar bons sentimentos e luminosas intuições. Nunca abandonem Deus, porque Ele nunca os abandona e abandonará. Vivam como quem se sente na palma de sua mão. E então estarão protegidos porque Ele é o Bom Pastor que vos conduzirá por verdes pastagens para que nada lhes falte. Ele é Pai e Mãe de infinita ternura.

Deus é o soberano amante da vida e o nosso grande aliado
Desde que o Filho de Deus por Jesus assumiu a nossa humanidade, ele assumiu também uma parte da Terra e dos elementos do universo. Portanto, estes já foram divinizados e eternizados. Nunca mais serão ameaçados. Mas nós podemos. Consolam-nos  as palavras da revelação dos dizem que Ele, Deus, é “o soberano amante da vida”(Sab 11,24). Ele sempre ama tudo o que um dia criou. Não esquece nenhuma criatura que nasceu de seu coração. Por isso, confiemos todos que Ele vai proteger a nossa querida Mãe Terra e garantir o futuro da vida que é o future de vocês todos.
Não desperdicem o tempo porque ele é urgente. Desta vez, não podemos chegar atrasados nem cometer erros, pois corremos o risco de não termos volta nem formas de correção dos erros cometidos. Mas não percam  o entusiasmo nem esmoreça  a  alegria do coração.  A vida sempre triunfa porque Deus é vivo e nos enviou Jesus que disse ter vindo para trazer vida e vida em abundância.
Era o que queria, do fundo de meu coração, lhes falar.
Por fim, faço-lhes um pedido muito especial: rezem, apoiem, colaborem com o Papa que leva o meu nome, Francisco. Ele vai restaurar a Igreja de hoje como eu tentei restaurar a Igreja do meu tempo. Sem a ajuda de vocês, se sentirá fraco e terá grandes dificuldades. Mas com o entusiasmo e o apoio de vocês, nos seus  grupos e movimentos, ele vai cumprir a missão que Jesus lhe confiou: conferir um rosto confiável à nossa Igreja e confirmar a todos na fé e na esperança. Com vocês ele será forte e irá conseguir.
Agora,  antes de nos despedirmos, lhes darei a bênção que um dia dei ao meu íntimo amigo Frei Leão, a ovelhinha de Deus:
Que Deus vos abençoe e vos guarde
Que Ele mostre sua face e se compadeça de vós.
Que volva o seu rosto para vós e vos dê a paz.
Que Deus vos abençoe.
Paz e Bem
Francisco
O Poverello e Fratello de Assis.
(*) Este texto faz parte do novo livro do teólogo Leonardo Boff, “Francisco de Assis, Francisco de Roma, uma nova primavera na Igreja?”